Scrum X PMBOK – a nova rivalidade do mercado

Existem grupos que amam se odiar. Assim eram os rockeiros frente ao surgimento da era Disco. E quem é da área de TI deve conhecer a rivalidade entre o pessoal do software livre (“javeiros” que andam com camisetas pretas na frente das quais podemos ver a figura de um pingiuim e, na parte de trás, palavras de ordem tais como “Viva a Revolução GNU”) e a turma da tecnologia Microsoft, admiradores de Bill Gates e seu mundo em torno do Windows.

Em um mundo onde há quem ainda morra de fome, estes embates são um luxo. Sempre achei divertidas, simpáticas e saudáveis estas competições, quase que ideológicas, a respeito de tecnologia ou abordagens metodológicas. Pelo menos fazem os lados articularem seus raciocínios, apurarem seus sensos de análise (ainda que cavocando fraquezas nos rivais) e dissertarem, tudo isto gerando aprendizado, reflexão e progresso, no final das contas.

Guerras em blogs, bate-bocas em eventos, réplicas e tréplicas em artigos de revistas... No fundo, tudo isto é bom. Como eu costumo dizer quando minha veia sarcástica está aflorada: “é melhor isto do que morrer de Doença de Chagas!”.

Temos agora, cada vez mais forte, uma discussão que envolve, no canto direito, os PMPs e sua doutrina do PMI e, do lado esquerdo, os praticantes dos métodos ágeis de desenvolvimento (por favor, a atribuição de lado “esquerdo” e “direito” a estes grupos não tem nenhuma segunda intenção ou mensagem subliminar – apenas quis me referir ao cenário de um ringue!).

Pois bem, o pessoal dos métodos ágeis atiram tomates na turma do PMI alegando que a abordagem deste é “pesada, burocrática, mais focada em processos do que em pessoas, e que já provou que não conduz a bons resultados”. A reação dos PMPs e simpatizantes têm sido menos intensa (acho que estão ocupados apagando incêndio em algum projeto, talvez), e costumam rebater alegando que “os métodos ágeis exigem uma disciplina que não se tem e que são usados muitas vezes como desculpa para descontrole de escopo e falta de vontade de planejar e controlar os trabalhos como se deve”.

O que existe de fato é que as paixões afloram e se sobrepõem à razão. Cabe aos dois lados um pouco mais de humildade. No mínimo, deveriam os debatedores conhecer muito bem seu lado e o do “oponente”, antes de alimentarem discussões que beiram o debate futebolístico. “Vai estudar, meu filho” caberia bem aqui.

Na confusão de conceitos, há quem acredite que um método ágil (como o Scrum) existe para se contrapor ao PMBOK. Isto é uma falácia, pois o contraponto aqui é a abordagem “waterfall” (em cascata) e não o PMBOK em si (que aliás não defende o uso do método “em cascata” nem nenhum outro, mostrando-se com um “framework” aberto, onde a organização ou o gestor define o ciclo de vida que julgar mais adequado ao projeto).

Por outro lado, também é falaciosa a ideia de que o Scrum consiste em trabalhar sem planejar (o bom e velho “sair fazendo”). Embora o foco aqui seja realmente em código funcionando, o Scrum na verdade tem muito de gerenciamento (se usado corretamente, é claro).

Ficando em cima do muro, corre-se o risco de apanhar dos dois lados. Mas não me importo. Penso que tudo tem seu lado bom, e é melhor garimpar o que há de aproveitável nas diferentes linhas do que adotar uma postura “xiita” (que pode ser muito divertida, apaixonante, mas é ruim para um consultor). Afinal, a natureza é sábia e mostra claramente os benefícios da miscigenação – basta observarmos exóticas morenas de olhos claros, de ascendência indígena de um lado e polonesa de outro, ou quaisquer combinações maravilhosas similares que nossa terra tanto ostenta para entender o que estou dizendo.

Claro que é preciso ter cuidado para não criarmos saladas pretensiosas que não funcionam. Mas aí quero lançar mão de um dos pilares do Scrum, que é a adaptação – cada organização deve avançar no uso e técnicas e aprender com isto, esforçando-se para entender o que deu certo e o que deu errado e por quê, rumo a um modelo que seja bom para si.

No tocante à documentação (considerada absurdamente pesada no PMBOK por qualquer um que já tenha tocado um projeto na vida), queria dizer que já vi excelentes planos de gerenciamento do projeto com poucas folhas, não porque o projeto era “pequeno”, mas sim pelo fato de os processos de suporte serem bem estruturados e focalizados no real valor trazido pela observância às áreas de conhecimento (todas elas).

Notem que nos dois últimos parágrafos eu usei elementos do lado “esquerdo” e do “direito”, e ambos pareceram conduzir a raciocínios razoáveis, não? É precisamente isto que procuro passar para os consultores que comigo trabalham : tentemos compreender todas as facetas, e delas fazer algo bom e útil, aperfeiçoando nosso bom senso com abertura.

Autor: Roberto Pina Rizzo, MSc, PMP, PMI-ACP - Diretor Executivo - Verx Consulting

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